Tapira Teen - A Revista Digital de Tapira
Publicado em: 30/09/2026
Tapirense é a primeira mulher a receber maior honraria da toxinologia internacional
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Aos 9 anos de idade, Maria Elena de Lima (hoje Maria Elena de Lima Perez Garcia) deixou a fazenda onde passou sua infância, na região da Canoa, perto de Tapira, para começar a estudar em Araxá. Décadas depois, tornou-se referência mundial em pesquisas com veneno de animais e acaba de ser condecorada com o Redi Award, o prêmio mais importante concedido pela International Society on Toxinology (IST) - e nenhum brasileiro, nem homem nem mulher, havia recebido essa honraria antes dela.

A notícia já circula pelos corredores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, onde Maria Elena construiu quase toda a sua carreira: professora aposentada do Departamento de Bioquímica e Imunologia, mas onde continua a orientar mestres e doutores, ela é hoje a primeira mulher — e a primeira cientista brasileira, entre homens e mulheres — a conquistar o Redi Award, concedido a cada dois anos pela IST desde 1967 a quem fez contribuições excepcionais para o estudo de venenos, peçonhas e toxinas de origem animal.

O prêmio leva o nome de Francesco Redi, cientista italiano do século XVII que, ao estudar cobras venenosas, lançou as bases da metodologia científica usada até hoje na toxinologia. Para Maria Elena, ser indicada e escolhida entre pesquisadores do mundo inteiro tem um significado especial: "esse ano fui indicada por um pesquisador italiano muito famoso, o professor Cesare Montecucco, e passei por uma comissão de cerca de doze pesquisadores internacionais de renome, que avaliou 15 indicados de vários países. “Fiquei muito feliz porque temos excelentes centros de pesquisa com toxinas no Brasil — a USP, o Butantan, a Fundação Ezequiel Dias, dentro outros — então ser escolhida foi uma honra muito grande e, sobretudo, representa o reconhecimento de estudos derivados da nossa biodiversidade, pois os venenos animais têm milhares de moléculas bioativas, que fazem parte deste patrimônio. E o Brasil detém cerca de 20% da biodiversidade mundial, o que temos que estudar, valorizar e preservar."

Ela destaca ainda o peso simbólico da conquista para as mulheres na ciência: na IST, elas representam 41% dos membros, mas nenhuma havia sido premiada até agora. "Essa questão é uma grande valorização para o Brasil e para as mulheres, que têm mostrado papel fundamental na ciência e na educação e representa-las, foi um especial incentivo e uma grande responsabilidade”

Uma infância na fazenda, perto de Tapira

Antes das bancadas de laboratório e dos congressos internacionais, houve a fazenda. Maria Elena morou até os nove anos numa propriedade na região conhecida como Canoa, perto de Tapira, onde nasceu em uma família numerosa — foram nove irmãos, filhos de Maria Madalena Queiroz de Lima e de João Alves de Lima, de famílias tradicionais da região, os Lima e os Resende.

Era uma vida simples, sem energia elétrica nem água encanada. À noite, cabia a ela a organizar as lamparinas; moer o café que a mãe preparava ao amanhecer. "A gente morava numa fazenda que tinha frutas e água corrente, era muito agradável. Foi um dos períodos mais bonitos da minha infância — vivi com toda a família, meus pais, meus irmãos. Meu pai tirava leite de manhã, a gente bebia leite no curral, ele trabalhava com agricultura. Foi uma vida simples, mas muito feliz", relembra.

Foi também na fazenda, brincando de “escrever” com pedrinhas coloridas na parede de cimento de casa, que surgiu a primeira vontade de ensinar. "Eu brincava de dar aulas, rabiscava na parede com essas pedrinhas, como se fosse giz. Sempre gostei muito de ensinar." Neste período, passou algum tempo com a irmâ Dalcy Alves Carvalho, casada e morando em outra fazenda, que ensinou a ela as primeiras letras, a alfabetizou e a incentivava com muito carinho a estudar.

A vida escolar só começou de fato aos nove anos, quando a família se mudou para Araxá — antes disso, ela havia visitado uma escola rural da região apenas uma vez, para "ver como era". Entrou direto no segundo ano do grupo escolar Delfin Moreira, com dificuldade, sem quase nenhuma base. "No início eu não sabia quase nada. Mas, a partir do meio do ano, já ganhava o prêmio de primeira aluna da sala."

De Araxá a Uberlândia: trabalhar de dia, estudar à noite

Sem faculdade em Araxá, Maria Elena se mudou ainda jovem para Uberlândia, onde foi morar com a irmã Dalcy, citada acima e sua primeira professora, que mudara para esta cidade— "uma pessoa com um coração enorme", segundo ela — e passou a trabalhar durante o dia para poder estudar à noite. Cursou Ciências Biológicas numa faculdade particular, época em que ainda não havia se transformado na Universidade Federal de Uberlândia. Pagava os estudos com o próprio salário, recorria a empréstimos e estudava até de madrugada. Aí se sobressaía como aluna aplicada e foi presidente do Diretório Acadêmico Brasília daquela faculdade, realizando inclusive um festival de música, o que era um feito deste diretório na época.

Formada, foi convidada a lecionar na própria instituição, já como Universidade Federal de Uberlândia, onde ministrou diversos cursos para a Medicina, Veterinária e Ciências Biológicas, durante 2 anos, inclusive um deles aos sábados em Monte Carmelo — o início de uma trajetória acadêmica que a levaria ao mestrado na UFMG, já pesquisando veneno de serpente e de escorpião, e depois a um doutorado e pós-doutorado na França, na Université de Marseille II, em Marselha, na França, entre 1985 e 1989. Recebeu convite para permanecer como pesquisadora na França, com um excelente laboratório para desenvolver sua pesquisa, mas preferiu voltar: "eu precisava voltar ao Brasil, que era o Brasil que precisava de implementar seu quadro de pesquisadores/professores qualificados e desenvolver seu enorme potencial em ciência e tecnologia. Tinha sido financiada pelo governo brasileiro para ir para a França, e via como essencial, implementar meu trabalho no Brasil, contribuindo com minha parte, para seu desenvolvimento científico e tecnológico."

De volta, prestou concurso para a UFMG, onde se tornou professora titular — o nível máximo da carreira — até se aposentar recentemente, mas continuando como pesquisadora voluntária da Instituição, onde orienta alunos de mestrado e doutorado, incluindo alunos estrangeiros que procuram por sua pesquisa. Ao longo do caminho, ocupou cargos na UFMG como chefe do Departamento de Bioquímica e Imunologia, coordenadora do programa de pós-graduação, pró-reitora de pesquisa e coordenadora do comitê de ética em pesquisa com seres humanos. Hoje segue como professora e pesquisadora na Faculdade Santa Casa de Belo Horizonte, além das orientações na UFMG — já foram mais de 60 dissertações e teses orientadas por ela, incluindo pesquisadores da Moçambique, do Egito e do Paquistão. Foi também presidente da Sociedade Brasileira de Toxinologia, por duas gestões, quando realizou dois congressos, sendo um internacional em Recife (Cabo de Sto Agostinho) e outro nacional em Araxá. Publicou quase 200 trabalhos científicos, editou 2 livros científicos em inglês e escreveu diversos capítulos de livro.

Da aranha armadeira a um possível novo medicamento

O trabalho que rendeu o Redi Award, foi atribuído por sua carreira científica, mas está centrado, sobretudo, no estudo do veneno de aranhas, especialmente a Phoneutria nigriventer, muito venenosa e típica em nossa região, é também chamada popularmente de “aranha armadeira”, pela posição típica que assume para atacar, levantando as patas dianteiras.. A equipe de Maria Elena, juntamente com pesquisadores da Fundação Ezequiel Dias, FUNED, em Belo Horizonte, identificou, no veneno, moléculas capazes de potencializar a resposta sexual. Mas estas moléculas são muito tóxicas e jamais poderiam se tornarem medicamentos. Mas a partir destas moléculas, a equipe liderada por Maria Elena desenvolveu em laboratório, um peptídeo sintético (pequena proteína) mais simples, batizado de PnPP-19 (Phoneutria nigriventer potentiator peptide – 19 resíduos de aminoácidos), hoje licenciado a uma empresa do Rio de Janeiro, a Biozeus, sob o nome BZ371A.

Diferente de medicamentos já existentes no mercado, o composto é de aplicação tópica, não tóxico e não reduz a pressão arterial — e, segundo a professora, pode se tornar o primeiro tratamento não hormonal voltado especificamente para a excitação feminina, inclusive na menopausa, ou pós-menopausa, além de uma alternativa para homens. O produto já passou pelas fases clínicas 1 e 2 em homens e mulheres e aguarda aprovação da Anvisa para a fase 3. Outros peptídeos, derivados também do PnPP-19, mostraram ação anti-inflamatória pulmonar — que, segundo a empresa Biozeuss, responsável pelos testes, ajudou a salvar, alguns pacientes graves de Covid-19.

A mesma molécula também mostrou resultados muito promissores no tratamento do glaucoma — reduzindo a pressão intraocular em modelos animais — e teve também efeito analgésico, com um derivado até quatro mil vezes mais potente que a pregabalina, usada, dentre outros, para tratar dor neuropática em pacientes diabéticos.

Peptídeos extraídos de outra espécie, a aranha de jardim (Lycosa erythrognatha), mostraram ainda efeito antitumoral em modelos de glioblastoma, câncer de mama triplo-negativo, câncer colorretal, de colo do útero, dentre outros. Em experimentos com camundongos, como um modelo de câncer de mama triplo negativo, o tipo mais comum e que não responde bem aos quimioterápicos atuais, o peptídeo em estudo, diminuiu os tumores e as metástases, sendo muito promissor para um futuro medicamento.

Estes peptídeos da aranha Lycosa, também foram sintetizados em laboratório, modificados e têm mostrado potente atividade contra bactérias resistentes, que estão em fase de expansão em todo o mundo e são responsáveis por grande número de mortes. Estima-se que, se novos antibióticos não forem descobertos, haverá 10 milhões de mortes anuais no mundo, por infecções por tais organismos resistentes aos antibióticos atuais. Portanto, a atividade antimicrobiana destes peptídeos, representa grande potencial para a obtenção de novos antibióticos contra bactérias resistentes..

Ao todo, somente com os peptídeos sintéticos, derivados do veneno da aranha armadeira, e ativos na função sexual, glaucoma e inflamação, já foram depositadas e aprovadas 25 patentes internacionais a partir dessas descobertas, com outras dez em análise. Tais patentes contam com o financiamento da empresa Biozeus.

Para os demais peptídeos, por exemplo derivados do veneno da aranha de jardim, Lycosa, mais uma dezena de patentes tem sido depositada cobrindo as atividades antimicrobiana e anticâncer - um esforço conjunto de Maria Elena e sua equipe na UFMG e Faculdade Sta.Casa-BH, que garante ao Brasil prioridade sobre os produtos que chegarem ao mercado.

Antes do Redi Award, o trabalho já havia sido reconhecido, condecorado com o primeiro lugar com o prêmio nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa (representando Minas Gerais pela FAPEMIG, entre todos os estados do país), prêmio concedido em São Paulo, um prêmio da Johnson & Johnson e, anos atrás, a Medalha Santos Dumont, recebida durante sua gestão como pró-reitora. Seus alunos já receberam várias premiações pelos trabalhos realizados, em congressos nacionais e internacionais.

A mensagem para os tapirenses

Ao ser convidada a deixar uma mensagem para quem, como ela, veio de Tapira e da vida simples do campo, Maria Elena foi direta: "o segredo de progredir, de alcançar um objetivo, é o sonho, o empenho, a vontade e o trabalho. Tudo isto tem outro sentido quando se alia à colaboração, não fazemos nada sozinhos e, precisamos sempre incluir e valorizar os colaboradores e os alunos. Sempre sonhei em ser cientista e educadora e trabalhei muito por isso. Quando tinha um obstáculo, em vez de recuar, eu via aquilo como um desafio a vencer."

Filha de pais com pouca instrução — a mãe havia terminado apenas o primário; o pai, nem isso —, ela credita à família o incentivo que a fez seguir em frente. "Eram pessoas que nos incentivavam muito e que nos ensinaram os princípios éticos e sobretudo o respeito aos semelhantes. Esse apoio familiar também é muito importante para a gente ir em frente." Por fim, cita o grande apoio de seu marido, Horacio Raul Perez Garcia, que era médico e pessoa que descreve como “maravilhosa e um ser inspirador para todos que com ele conviveram” (falecido há 5 meses) e de seus dois filhos já adultos, Horacio e Maria Fernanda. O amor, o carinho e o suporte desta família foram essenciais na sua vida pessoal e profissional.

E deixa um recado final a quem sonha, hoje, o que ela sonhava quando brincava de dar aula com pedrinhas na parede de uma fazenda perto da Canoa: "nunca desistam, vão atrás dos seus sonhos e dos seus projetos — tudo é possível se a gente se dedica, há muitas voltas e também atalhos. Trabalhem muito, deem asas aos seus sonhos. Mas as asas significam muito investimento, muito esforço, e gostar do que se faz. Essa é a chave de tudo, fazer com amor."

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